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terça-feira, 19 de maio de 2009

Mil anos menos cinquenta, de Ângela Abreu (Dutra de Menezes)

A mesma verdade pode mudar de aparência, dependendo de como é contada: igual à idade de Noé – 950 anos, diz a Bíblia (Gênesis 8, 29); Mil anos menos cinqüenta, explica, com mais poesia, o Alcorão (29, 14). Dois livros, dois simbolismos, duas maneiras de pensar revelando a mesma história – a de séculos, um milênio, ou quase isto.  Exato o tempos gasto por ma família em sua caminhada entre Coimbra reconquistada (1064) e o Brasil de hoje – mil anos menos cinqüenta de omissão, coragem, medo, solidão, fé no possível e, claro, muitas paixões. (Contra capa)
 

Logo quando iniciei o mestrado, um de meus professores passou uma lista de livros que deveríamos ler na sua disciplina, que falaria sobre Ficção Histórica. 

Nunca havia ouvido falar de Ângela Abreu, ou Ângela Dutra de Menezes, mas me surpreendi com a sua qualidade artística, principalmente pelo fato de quase todos os alunos da minha turma também não a conhecerem. Foi com curiosidade que iniciamos a leitura do romance que tem duas epígrafes igualmente surpreendentes: 

E disse Jesus: não julgueis que eu tenha vindo trazer paz à Terra. Não vim trazer a paz, mas a espada. (Evangelho de Mateus, capítulo 10, versículo 34) 

Resignai-vos ou não vos resigneis, o resultado será o mesmo. (Alcorão, sura 52, versículo 16)
 

Ao lermos o texto da contra-capa do livro (paratexto), percebemos que se trata de uma versão da História de Portugal. A epígrafe apenas ajuda a reforçar a idéia de oposição entre as duas religiões que fundaram o país e sua cultura: o catolicismo e o islamismo. 

Fica evidente também, principalmente quando se inicia a leitura, de fato, que se trata de uma paródia dos estudos religiosos e da história: 

Livro da genealogia de todos nós, filhos de Deus ou do Diabo, conforme cada destino. 

Ab’ul e Urraca geraram Afonso. Afonso gerou Pedro Afonso. Pedro Afonso gerou Fernando. Fernando, de Arshan, gerou Nabila e o varão Paulo Pio. Nabila gerou João Afonso e Mona. Mona gerou Joana. Joana gerou Brites. Brites gerou Constança. Constança gerou Ana e então teve o exílio de Coimbra. (p. 14)
 

Igualmente, todos os demais 72 capítulos (curtos) trazem uma epígrafe religiosa, por vezes tirada da Bíblia, outras do Alcorão. 

Ao final do livro, encontramos a Genealogia de Ab’ul e Urraca, uma ferramenta muito utilizada nos livros de história e que é muito útil em “Mil anos menos cinqüenta”, devido o grande número de personagens e ao longo tempo em que passa o enredo. 

Quase todas as personagens fazem referência a personalidades da História de Portugal, mas constroem uma história paralela que frequentemente se entrelaça com a história oficial. 

Como se fosse fácil, Urraca, 38ª geração de Ab’ul e Urraca, decidiu fazer-se ao mar, atravessar o oceano, levar seu sangue ao Brasil, o sangue e os olhos mouros, também os cabelos vermelhor, até os antigos defeitos, velhos vícios de sua gente – tentando ou não tentando, o final seria o mesmo, ao menos se distraía. Foi decidir e ir embora, assim deixara Coimbra, sem nem mesmo olhar para trás, e assim partiu Urraca, em uma manhã de inverno, levando pequena bagagem, apenas algumas roupas, raras moedas, contadas, dois livros de Dom Quixote, herança de sua mãe com quem aprendera a ler, livros de matar saudade, um dia eles seriam a alegria de uma neta mas isto, como saber, saber naquele momento, só de esperança, afinal, era do clã, trazia sonhos nas mãos – seria uma nova luta, isto já se sabia, por ser herança divina a luta não acabava mas em um País distante, novos chãos, novos caminhos, quem sabe haveria um canto para, enfim, a família conseguir viver em paz. (p. 258)
 

O enredo, como ficamos sabendo ao final do livro, e contado do Rio de Janeiro. Além de uma genealogia portuguesa, como daí viemos, esse livro não deixa de constituir, também, a nossa genealogia. 

segunda-feira, 9 de março de 2009

A vida e a literatura: diálogos

"... em minha discreta opinião, senhor doutor, tudo quanto não for vida, é literatura, A história também, A história sobretudo, sem querer ofender, E a pintura, e a música, A música anda a resistir desde que nasceu, ora vai, ora vem, quer livrar-se da palavra, suponho que por inveja, mas regressa sempre à obediência, E a pintura, Ora, a pintura não é mais do que literatura feita com pincéis, Esero que não esteja esquecido de que a humanidade começou a pintar muito antes de saber escrever, Conhece o rifão, se não tens cão caça com o gato, por outras palavras, quem não pode escrever pinta, ou desenha, é o que fazem as crianças, O que você quer dizer, por outras palavras, é que a literatura já existia antes de ter nascido, Sim senhor, como o homem, por outras palavras, antes de o ser já o era. Parece-me um ponto de vista bastante original..."

(SARAMAGO, José. História do cerco de Lisboa, p. 12)

sábado, 10 de janeiro de 2009

"A viagem do elefante" de José Saramago - um presente de português

De presente, um elefante. Alguém já pensou nisso? Pois no século XVI, o rei D. João III resolveu presentear o arquiduque de Áustria, Maximiliano II com o elefante Salomão. Presente de grego? Não. Presente de português. Para chegar ao seu destino, Salomão teve de percorrer com suas próprias pernas toda a viagem de Portugal a Áustria. Este é o fato em que se baseia o mais novo romance de José Saramago: “A viagem do elefante” .

Durante a viagem, vemos os desrespeitos por que Salomão tem de passar, tendo seus horários de sono diminuídos, sendo chamado de Solimão e se vendo obrigado a produzir milagres para a igreja católica etc. Algum tempo depois de chegar a Viena, descobrimos uma coisa: sempre chegamos aonde temos que chegar.

A exemplo de “Memorial do convento”, “O ano da morte de Ricardo Reis” e “História do cerco de Lisboa”, José Saramago consegue construir mais um romance histórico da melhor qualidade, com questionamentos que nos levam a pensar: o que conhecemos como a História é realmente a nossa história ou apenas uma versão dela.

Muitas são as similaridades e aproximações entre Literatura e História, pois vários são os recursos utilizados por ambas: a narratividade, a temporalidade, a espacialidade. No Romance Histórico, a fronteira entre ambas praticamente deixa de existir, pois, além de utilizarem o mesmo material, ambos trabalham com o conceito de ficcionalização.

Embora a História tenha um compromisso com a verdade, inúmeras vezes o historiador se vê obrigado a preencher lacunas, e o faz por meio da ficção, e inserindo nela seus próprios valores e pontos de vista.

Os romances retratam e refletem sobre um acontecimento histórico de forma muitas vezes mais acurada do que a História propriamente dita, pois tem a possibilidade de ir mais a fundo nos fatos, cutucá-los para avivar a ferida e expô-la aos leitores. Mais do que a simples narração de fatos, através do romance histórico, temos a possibilidade de penetrar da consciência dos personagens históricos e entender melhor a história. Obviamente, o romance não traz a verdade, mas a possibilidade, o que não deixa de ser mais uma forma possível de reflexão, talvez a principal objetivo do romance histórico. Para tanto, estão no romance essas distorções, essas personagens históricas em contato com as fictícias, esta metalinguagem, essa ironia tão própria de José Saramago. O romance histórico não está interessado em narrar fatos históricos. Mais que isso, está interessado em (des) construí-los e (des) mitificá-los.

Mais uma vez, é isto que Saramago nos traz em seu romance: uma possibilidade e uma reflexão sobre a nossa natureza, a forma como submetemos as coisas, pessoas e elefantes a nossos caprichos.

No lançamento do livro em São Paulo, José Saramago falou sobre os processos de construção desse romance e afirmou não ser o pior de seus romances e nem o melhor. Certamente é diferente, embora tenha todas as melhores características de suas obras. É um maravilhoso presente de português aos leitores.

Ah! Confiram o Caderno de Saramago, atualizado quase diariamente pelo próprio escritor e o Blog da Fundação José Saramago, de responsabilidade da sua esposa Pilar.

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