sábado, 24 de janeiro de 2009

O romance e o realismo

Um dos primeiros problemas com que a arte, seja ela cinema, literatura, pintura, dentre outras, se depara é a sua legitimação. A muitos olhos, a arte não possui valor social e não produz nenhum bem imediato à sociedade, ou seja, nem sempre se consegue perceber a função da arte.

O caso da literatura, particularmente, possui um agravante: a ficção. O fato de se saber que o que se está lendo não é uma verdade (entendida aqui como o que aconteceu de fato) acaba diminuindo ainda mais a popularidade da literatura. A justificação da literatura ficaria então por conta das disciplinas que ela seria capaz de englobar.

A partir disso, Silvina Rodrigues Lopes reflete sobre qual a função da ficção:

A relação ars e ingenium corresponde ao reconhecimento de uma capacidade de
inventar, de ficcionar, a par da necessária mestria técnica e do respeito das
regras que ela implica. Trata-se de pensar até que ponto a arte é exclusivamente
imitação ou também invenção e até que ponto estas se opõem ou completam.


Dessa forma, podemos pensar sim, numa função representativa e inventiva da literatura, visto que ela pretende representar a vida, mas utiliza-se da capacidade de invenção de seus autores. Silvina Lopes afirma que ao mesmo tempo em que se “concede à literatura o direito de inventar histórias e fábulas originais e ao autor o direito a um estilo ‘próprio’, impõe(-se)-lhe o dever de não ir além do aceitável e, portanto, necessariamente, do reconhecível, isto é, proíbe-a de inventar.

Mesmo nos primórdios da teoria literária já se discutia a função da literatura e a sua distinção das outras áreas do conhecimento. Em “A poética”, Aristóteles evoca o tempo todo o termo imitação, mas também considera o fator da invenção. “O historiador e o poeta não se distinguem por escrever em verso ou prosa; (...) a diferença é que um relata os fatos que de fato sucederam, enquanto o outro fala de coisas que poderiam suceder”.

Quando, no século XIX, surgiu o termo realismo, destinado a determinado grupo de obras literárias, o fator imitação era extremamente valorizado a ponto de que o significado era mais importante que a significação. Buscava-se, naquele momento, trazer a realidade, nua e crua, para dentro do texto ficcional. Surge aí o gênero romanesco como o conhecemos hoje, em que se dá o privilégio ao conteúdo e não simplesmente à forma, sendo que esta assume um caráter mais livre.

Como o romance, gênero realista por excelência, surge justamente na oposição entre a subjetividade romântica e a objetividade e o pensamento científico, temos, a partir daí, o retrato do homem em sua completude, seus defeitos e suas virtudes. A grande idéia do romance realista foi representar a vida humana, o concreto.

Partindo da ascensão desse novo modelo de ficção, descrita por Ian Watt, o romance acabou trazendo o realismo como sua maior característica até o presente, com a justificativa de que, vendo o que somos mediante a apreciação da obra de arte, podemos refletir sobre a nossa condição.

No entanto, a própria concepção de realismo é relativa. Jakobson reflete:

O que é o realismo para o teórico de arte? É uma corrente artística que propôs
como seu objetivo reproduzir a realidade o mais fielmente possível e que aspira
ao máximo de verossimilhança. (... ) E já se evidencia a ambigüidade: 1 –
trata-se de uma aspiração, uma tendência, isto é, chama-se realista a obra cujo
autor em causa propõe como verossímil (significação A). 2 – Chama-se realista a
obra que é percebida por quem a julga como verossímil (significação B)

Assim, podemos afirmar que há dois realismos: o escolástico e o realismo que, mesmo não pertencendo à época e ao movimento literário realista, possui características que conferem ao texto o fator da verossimilhança e propiciam ao leitor a impressão de estar frente a acontecimentos reais. Ian Watt, estudando alguns textos ingleses realistas, propõe algumas das que seriam as características básicas que provocam no leitor essa impressão de realidade frente ao texto ficcional.

A primeira característica proposta pelo estudioso é a ênfase na experiência individual. Antes da ascensão do romance, os textos literários buscavam mais privilegiar os feitos históricos e as qualidades de determinado grupo de pessoas. Deixa-se, no romance, de apresentar caracteres gerais, tipos e passa-se a privilegiar a experiência individual, a especificidade das personagens. Dentre outras coisas, o nome da personagem, que tinha uma função e era muito freqüentemente genérico, passa a funcionar de forma diferente. Os nomes são, para a literatura realista “a expressão verbal da identidade particular de cada indivíduo” A apresentação e a caracterização do cenário também ganha um papel especial, pois sua descrição conta agora com pormenores e exatidão. Não é mais descrito apenas o que será usado numa determinada cena, mas tudo o que faz parte de determinado espaço, mesmo que, aparentemente, ele não tenha nenhuma função para o entendimento do enredo além de conceder um caráter mais particular ao que é narrado.

Contrariamente ao que acontecia com a narrativa anterior ao romance, que buscava narrar o atemporal, as experiências que poderiam tanto acontecer agora como há 300 anos, o romance situa os fatos narrados e um local e tempo bem delimitados, visto que, repetindo, não busca mais o geral, mas o específico e o que é específico sempre possui um local e um tempo bem definidos. Resumindo, tudo o que existe, existe em determinado tempo e local.

As experiências individuais da personagem situadas no romance num espaço e tempo delimitados são vistos como causas para a condição presente da personagem. Não há mais o fator da coincidência como nas narrativas tradicionais. Dessa forma, o romance propicia a visualização da evolução da personagem no tempo.

Além disso, pode-se pensar em dois outros fatores que podem contribuir para a impressão de realidade do texto ficcional: a instância narrativa e o discurso. Bakhtin já falava sobre a importância dos diversos tipos de discursos utilizados no texto. Se a língua é formada por estes vários tipos de discurso, a sua utilização no romance o aproxima ainda mais da realidade.

De certa forma, a impressão de realismo que o romance nos causa no momento da leitura está justificado pelas estratégias utilizadas pelo autor. Também justifica que seja o gênero narrativo mais popular e fácil de ser lido. O romance não exige uma capacidade tão grande de abstração como a poesia, por exemplo.

Pessoal, para quem se interessa em ler os textos citados, postarei as referências nos comentários, ok?

Abraço!

3 comentários:

  1. ARISTÓTELES. Coleção Os pensadores. A poética. São Paulo: Nova Cultural, 2000

    JAKOBSON, Roman. Do realismo artístico. In. TOLEDO, Dionísio de Oliveira (org.). Teoria da Literatura. Formalistas Russos. Porto Alegre: Globo, 1978. p. 119-127.

    LOPES, Silvina Rodrigues. A legitimação em literatura. Lisboa: Cosmos, 1994.

    TZVETAN, Todorov (org.). Literatura e Realidade. Lisboa: Dom Quixote, 1984.

    WATT, Ian. A ascensão do romance: estudos sobre Defoe, Richardson e Fielding. São Paulo: Schwarcz, 1990.

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  2. Boa explicação, parabéns, vou começar a ler ian watt e fica mais fácil agora

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  3. Boa explicação, parabéns, vou começar a ler ian watt e fica mais fácil agora

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